27.3.14

Premack em ação #1

No último post nos falamos um pouco sobre o princípio de Premack, uma ferramenta que pode nos ajudar a transformar vários elementos da vida de nossos cães em reforços para o treinamento. Vocês devem ter notado que o princípio de Premack funciona de forma muito parecida com o reforço positivo. O animal faz alguma coisa que gostamos e algo que ele gosta acontece (petiscos, oportunidade de nadar, etc.).

Na verdade, na verdade, existe toda uma discussão chata na comunidade científica sobre os limites desse princípio e como devemos usar apenas o reforço positivo para fazer nossas análises. Para os nossos intuitos é só um monte de blablablá. No entanto, eu vejo uma grande vantagem e uma mudança de olhar muito grande quando as pessoas discutem nos termos do princípio de Premack.

Ele nos convida a prestar atenção em nossos cães e no que eles já fazem.

O seu cão gosta de jogar bolinha? Nadar? Perseguir esquilos? Latir para os gatos em cima do muro? Cheirar os gramados durante o passeio? Então vamos usar todas essas coisas para treiná-lo!




Mas, como aplicar Premack na prática?

Quando vamos treinar nossos cães com petiscos o princípio é que nossos cães só irão ganhar quando tiverem um acerto. Não há acesso aos petiscos enquanto o cão não acerta. E esse é o grande problema das distrações nos treinos, geralmente, nós não conseguimos controlar o acesso que os cães tem a elas.

Esse é o primeiro passo (o mais difícil e o mais importante) para o treino sem o uso de corretivos: controlar os reforçadores que os cães obtêm.

ESQUILO!

O grande erro na hora de iniciar um treino com distrações é, justamente, não ter o controle sobre como o cão poderá interagir com elas. A questão não é proibir que o cão faça as atividades mas, sim, faça de forma controlada e prestando atenção em seu dono.

Se você tem o controle sobre a distração, pode começar a treinar o comportamento de forma progressiva. Sempre começando com um exercício bem simples e evoluindo progressivamente.


Premack em ação

Quando eu comecei a treinar agility no Dog World I, eu sempre soltava o Pypo assim que chegava para que ele pudesse cheirar e fazer suas necessidades. Acontece que o Pypo nunca foi o cão mais atencioso e focado do mundo, rs. E, no final das contas, eu precisava enganá-lo com um petisco para conseguir que ele voltasse. 

Não demorou muito para ele aprender que ver o petisco significava ir para a caixa de transporte e perder a oportunidade de continuar cheirando. Sim, ele parou de vir mesmo se eu ficasse exibindo o petisco na fuça dele.

- Inspira -

- Expira -

Fonte
Foi aí que eu resolvi começar a treinar usando o 'cheirar o chão e passear' como reforço. Eu já tinha lido várias vezes sobre o assunto mas nunca tinha colocado em prática. Só que eu já não tinha mais muitas outras alternativas, rs.

O Pypo já tinha aprendido que não poderia me ouvir e obedecer senão coisas ruins aconteceriam (tipo ficar preso na caixa do tédio). Como mudar isso?

A primeira coisa que fiz foi mudar a maneira como eu entrava na escola porque eu ainda tinha controle nessa situação. Assim que chegávamos no portão, eu passei a pedir para o Pypo sentar e olhar para mim. Assim que ele o fazia, eu abria o portão. Se ele saísse do senta, eu fechava o portão. Ele deveria permanecer sentado e olhando para mim até que eu liberasse com "ok, vai passear".

Como ele tinha medo de ser chamado para a caixa, eu comecei esse treino bem longe da barraca onde ficam as caixas de transporte. Ele não viria se eu chamasse, mesmo estando longe da barraca, então eu passei a jogar pedaços de salsicha na direção dele sempre que ele olhava para mim ou vinha na minha direção. Assim que ele comia, eu dava o comando para ele ir passear de novo.

Logo, ele passou a buscar mais e mais a minha atenção. E só aí eu passei a chamá-lo. Quando eu voltei a chamá-lo, ele passou a me evitar mais do que quando eu simplesmente esperava ele vir sem chamar. Na época, eu achei isso super irritante, ficava brava com essa "teimosia" dele. Mas com tudo que eu já falei, dá para entender porque ele relacionou o comando com algo que ele deveria evitar, não é? Eu demorei um tempo para me tocar disso.

Passeiozinho no mato. Dory solta e Pypo na guia.


Nesse momento do treino, toda vez que ele vinha até mim quando chamado, eu recompensava com o petisco e dava o comando "passear" para que ele continuasse cheirando por aí. Ele ainda tinha bastante receio que eu o prendesse então ele ia embora feliz da vida.

E assim a coisa seguiu. Até o dia de hoje, em que eu posso chamá-lo, pedir alguns comandos e liberá-lo para cheirar. O mais lindo é que hoje ele sempre cheira prestando atenção em mim esperando uma oportunidade para brincar esse nosso jogo. 

Hoje, eu sei que eu poderia ter acelerado nosso processo deixando que o Pypo cheirasse em um ambiente menor e que ficasse entediante mais rápido. Ficaria mais fácil de controlar a situação e ensiná-lo a prestar atenção em mim. Mas báh, vivendo e aprendendo :)

27.2.14

O princípio de Premack - se a vida te dá limões, faça caipirinha!

O treino com reforçamento positivo tem ganhado cada vez mais força no cenário mundial. A fama dos esportes e dos truques caninos tem muito a ver com esse crescimento já que o uso de reforço positivo é muito intuitivo na hora de treinar esse tipo de exercício. No entanto, ainda existem muitas críticas em relação a abordagem quando se discute problemas de comportamento. 

Essas críticas são naturais pois pensar o reforço positivo nesse tipo de situação parece contraintuitivo, não é? Para reforçar eu preciso de um comportamento que eu considere desejável e queira ver repetido no futuro, mas um problema de comportamento é justamente o oposto disso!

No post de hoje, nós vamos falar sobre um problema de comportamento bastante comum mas relativamente simples de resolver: o do cão que nos abandona por distrações.

Treinar um cão com sucesso em casa mas não conseguir o mesmo nível de proficiência em locais públicos pode ser bastante frustrante, especialmente para os times engajados em esportes. Ensinar um cão a se concentrar em meio as distrações envolve muitos aspectos, entre eles, socialização, treino de generalização e um relacionamento próximo com o cachorro. Ele pode se distrair porque está desconfortável, com medo ou porque não entendeu o que você espera dele.

Olha que água INCRÍVEL, cara!!
Ou ele simplesmente está muito mais interessado nas diversões do mundo externo do que em você.

Infelizmente, é difícil ser mais interessante do que todos os outros cães, cheiros, esquilos, lagos ou ovelhas desse mundo. Então como ensinar nosso cão a continuar prestando atenção em nós nessas situações?

É aí que entra o princípio de Premack, ou como eu gosto de chamá-lo, se a vida te dá limões, faça uma caipirinha!

O princípio de Premack coloca que um comportamento que acontece com alta frequência em uma dada situação, pode ser usado como reforçador para um comportamento de baixa frequência. Ou seja, podemos usar o atividade de cheirar outros cães como reforçador para, por exemplo, prestar atenção em nós. Por estar seguido de uma atividade reforçadora, o prestar atenção aumenta de frequência. Logo, estamos ensinando nossos cães a prestar mais atenção em nós na presença de outros cães. Lindo, não?

É bem parecido com o que conversamos sobre reforço positivo, não é? 

O princípio de Premack nos ajuda a lembrar que não precisamos ficar presos aos petiscos e brinquedos quando vamos treinar nossos cães. Petiscos e brinquedos são ótimos e práticos para o treino, mas por que nos limitarmos a eles se podemos usar também todas as outras atividades que nossos cães naturalmente adoram fazer?

E a melhor parte, é que essas atividades menos reforçadoras começam a se tornar mais divertidas para o cão. Mas nos alongaremos mais sobre isso em um próximo post.

Deixo para vocês um vídeo que já postei aqui no blog, mas que ilustra perfeitamente o uso desse princípio.




Se a vida te dá distrações, faça um lindo treino baseado em Premack! :)

Bom carnaval a todos!!

7.9.13

Mudanças pelo tempo - Afghan Hound


Begum, 1934
Ranee, Straker e Kanee - 1925

Exlysta Aries Ciel Noir - campeã da Westminster em 2013


Afghan de caça no Afeganistão - 2013

1.5.13

Conflito e sofrimento

Semanas atrás, eu tive uma aula sobre Psicologia Clínica que só me remetia ao blog o tempo inteiro. Queria escrever um texto aqui mas com as complicações da vida cotidiana, não consegui. Hoje algo me trouxe de volta a esse assunto.


O tema da aula era: o que é o sofrimento na clínica psicológica?


Em posts anteriores, eu discuti como as punições podem produzir diversas respostas emocionais nos nossos cães e causar sofrimento. Mas será que isso é sempre verdade?  


Não, não é. :)

Isso não significa que menti para vocês. A verdade é que toda e qualquer forma de punição é desagradável e produz respostas emocionais compatíveis. No entanto, isso não significa que levará o cão ou a pessoa a viverem grande sofrimento.

Eu nunca fui a terapia para falar sobre a topada na porta que eu dei com o dedinho do pé. E eu sempre faço isso e é sempre mega desagradável. E eu também não falo sobre as buzinadas (e palavrões adjacentes) que eu recebo no trânsito quando fecho alguém sem querer e, na boa, eu sempre fico muito triste quando isso acontece. Não sei porque, ainda mais no trânsito paulista, mas eu fico.

Por mais que toda punição cause desconforto, não necessariamente isso levará a um grande sofrimento. E ninguém vai a terapia para falar sobre como é feliz ou sobre desconfortos. As pessoas vão a terapia para falar de sofrimentos, de sentimentos ruins que as acompanham a todo momento ou invadem áreas da vida que antes não eram ansiogênicas. 

Mas por que eu estou falando de tudo isso?

Os sofrimentos são gerados, não simplesmente por punições, mas por conflitos. 

Quando eu dou uma topada na porta, não existe nada que me faça querer dar outra topada. Eu simplesmente pego a minha dor e tento ser mais coordenada. Não existe conflito algumMas quando eu brigo com alguém que eu gosto muito... Por um lado, eu estou com raiva e quero ser agressiva, mas por outro, deixar essa pessoa triste, me deixa triste... mas então por que eu continuo brigando com ela? Por que ás vezes fazemos coisas que nos fazem sentir mal?

Mas quem nunca viveu o sofrimento de não se sentir aceito pelo que é? Estar acima do peso, não ser descolado ou gostar de pessoas do mesmo sexo. Afinal, se não ser aceito me deixa tão triste porque eu não faço o que é preciso para ser aceito? Antes fosse simples assim. Ah, se a vida fosse apenas topadas na porta. Não é? 

Os conflitos geram tanta dor porque nos fazem escolher entre sair perdendo e sair perdendo menos. Não há saída que nos permita evitar completamente sofrimentos futuros. Isso é uma m*rd@.

Mas por que eu estou falando de tudo isso? (2)

Em todos os posts desse blog em que eu defendi o treino de cães sem o uso de correções ou punições, eu não o fiz porque punições são coisas do demônio ou são politicamente incorretas. A gente sempre vai dar topadas na porta, faz parte. Mas eu defendo o treino sem correções porque eu não desejo um treino gerador de conflitos.

Quando falamos de desvios de comportamentos, isso se torna ainda mais importante. Quando nossos cães fazem algo de errado com frequência, eles o fazem por um motivo. Não porque são pentelhos, maus ou bravos, mas porque algo faz desse comportamento a melhor opção para eles. Ou a opção menos pior. Algo está sustentando esse comportamento e, o quer que seja, se colocará no caminho da punição que eu usar para interromper esse comportamento. Nesse ponto, meu cão terá de escolher qual é a melhor opção ou qual a menos pior...


Meu cão preto, por exemplo, é agressivo com outros cães no passeio. Tenho plena certeza de que sua agressividade é causada por medo. Para ele, avançar em outros cães ajuda a lidar com esse medo. No começo da nossa relação, quando ele ainda era filhote, eu fui aconselhada a puni-lo toda vez que emitisse comportamentos agressivos. O principal efeito desse treino foi: aumentar ainda mais seu medo de outros cães. Afinal, quando ele via outros cães, ele não devia só teme-los, como devia temer a mim também.

Não nego que talvez alguém experiente com esse tipo de treino pudesse ter sido mais bem sucedida do que eu fui, talvez pudesse mesmo. Mas esse treino nada faria para diminuir o medo que o Pypo sentia de outros cães, mas sim, para fazer com que a minha punição vencesse esse conflito. Ou seja, o objetivo final seria que ele conseguisse engolir o desconforto causado por outros cães para evitar minhas broncas.

Além de não fazer nada a respeito da principal problemática do meu cão, esse tipo de treino colocou uma pedra na nossa relação que até hoje eu tento tirar.

Por isso, ao cogitar o uso de punições, olhe ao redor de seu cão e não para ele. As causas do comportamento não estão nele. Não adianta corrigi-lo como se ele fizesse isso por ser folgado, dominante ou malvado. É o ambiente que diz ao seu cão como deve agir. Sendo assim, aja sobre esse ambiente. 

Desfaça conflitos, não os crie!


Lembre-se: seu cão não tem a opção de ir à terapia :)